A História e o Futuro dos Hotéis

  • Fique tranquilo pois não vou falar das hospedagens das primeiras Olimpíadas na Grécia, nem dos viajantes na época do Império Romano. Vamos ser mais sucintos para chegar logo ao futuro. Mas é preciso um breve contexto histórico para que faça sentido o que o futuro reserva para a hotelaria. Comecemos pela história:

    1810 à 1840 – Época dos ‘Grand Hotels’

    A explosão dessa categoria foi na Revolução Industrial que, juntamente com o transporte ferroviário e marítimo, despertou uma nova classe de viajantes de lazer, que queriam manter o padrão de serviço e estilo de suas luxuosas casas.

    • Ícone mundial: Claridge (Londres) e Danieli (Veneza) 
    • Ícone no Brasil: Copacabana Palace (1923) – Sim, demorou 100 anos para que esse estilo de hotel chegasse por aqui.

  • Hotel Veneza

    1920 à 1950 – Criação das Redes Hoteleiras

    Dá para imaginar a Marriott sendo um pequeno hotel em Dallas, gerenciado por um casal? 

    Com sua recente fusão com a Starwood, que gerou um conglomerado de 5.700 hotéis com mais de 1,1 milhão de quartos, fica difícil imaginar que, décadas atrás, era um simples hotel independente.

    A padronização de marcas, grandes centrais de reservas e sistemas automatizados de distribuição que marcam presença na nossa indústria atual, nasceram nessa época.

    • Ícones no mundo: Hilton em Dallas (1925),  Sheraton (1937), e entra na bolsa de valores em 1947. Marriott só foi criada em 1957.
    • Ícone no Brasil: primeiro hotel de rede no Brasil – Hilton São Paulo (só em 1971). Nessa época, estávamos no auge dos Hotéis Cassino, que abriram na década de 30, e fecharam em 1946. Nem se pensava em redes hoteleiras por aqui nessa época.

    1980 à 1990 – Explosão dos Hotéis Boutique

    Não tem como falar sobre Hotéis Boutique sem mencionar Ian Scharger, co-founder do icônico estúdio 54. O estilo minimalista, globalizado e fashionista começou a invadir a decoração e ambientação da hotelaria. A ideia era não parecer um hotel, mas uma casa sofisticada. E os amenities acompanharam, sempre com marcas que traziam o co-branding para o projeto. 

    O foco era oferecer uma proposta oposta às grandes cadeias hoteleiras. E deu tão certo, que tempos depois as próprias redes incorporaram diversas características dos ‘boutique’. 

    • Ícone no mundo: Delano de Miami (1995), e mais tarde várias redes, sendo W Hotels a referência máxima, com seu estilo irreverente, e os icônicos lobbys que viram boates à noite.
    • Ícone no Brasil: Fasano São Paulo e Unique  (2003) – Veja como nosso timing começou a melhorar.

    Leia meu artigo O Futuro dos Hotéis Boutique  para saber mais sobre o assunto: 

  • Hotel Delano Miami

    Início dos Anos 2000 – Cultura Local (Suave e Conectada) 

    Alex Calderwood ressuscitou e redefiniu o conceito ‘boutique’ como algo mais suave e orientado para a cultura local. O lobby ficou maior, os bares discretos, e os ambientes gastronômicos mais aconchegantes para lazer e trabalho, com wi-fi gratuito.

    A cortina de veludo bordô de Scharger foi substituído por um ambiente criativo, abraçando músicos, escritores, artistas e designers gráficos. Surgido na Ásia, o estilo conquistou o mundo, e claro, as redes já adequaram suas marcas em função dos Millenials. 

    • Ícone no mundo: Andaz (Hyatt) – 2014
    • Ícone no Brasil: Pullman Ibirapuera (2011) – Antigo Gran Mercure SP, que passou a operar no lugar do saudoso Sofitel SP.

    Obs.: O Pullman foi o mais próximo que consegui encontrar do estilo no Brasil, mas note que ele abriu por aqui antes do Andaz.

  • Andaz Amsterdam

    2005 à 2010 – Economia Compartilhada

    Esse item dispensa apresentações. Todos sabemos que o Airbnb se tornou um gigante na indústria e viagens, e continua ampliando suas funções para concierge e até mesmo agente de viagens com sua plataforma Trip. Claro que os hóspedes não tem os serviços e segurança dos hotéis, mas o modelo alcançou rapidamente o segmento de alto padrão (Love Home Swap, Le Collectionist e OneFineStay – 2010), que procuram solucionar essas preocupações. Essas opções, inclusive, já oferecem um concierge 24 horas durante o aluguel da casa. 

    • Ícone no mundo: Homestay (2005) – hoje pertence à Expedia – foi o primeiro, mas Airbnb, que chegou em 2008, conquistou o mundo.
    • Evolução: a tendência veio tão forte que, hoje em dia, as OTAs e as próprias redes hoteleiras já oferecem casas de aluguel em suas plataformas de distribuição. 

    Exemplo: Accor adquiriu recentemente a OneFineStay, Travel Keys e Squarebreak, e vai totalizar uma oferta de cerca de 8,5 mil endereços no mercado de aluguel de imóveis de luxo para temporada.


    Reprodução do site OneFineStay

    2014 à 2018 – Micro Hotéis

    Estamos falando da evolução daqueles claustrofóbicos hotéis cápsula do Japão, lembra?

    O hotel é projetado pensando nos viajantes que passam pouco tempo no quarto e mais em espaços públicos multiusos. Os armários costumam ser abertos, banheiros com vidro e enormes janelas. O serviço é limitado, mas flexível. Funcionários são recepcionistas, baristas, concierges e caixa. Parcerias com artistas locais, designers e fornecedores de alimentos e bebidas dão o toque autêntico do destino onde está localizado. 

    • Ícone no Mundo: Citizen M, Yotel, Zuko
    • Evolução: Moxy (2014), marca da Marriott, e Tommie (Thompson Hotels) em 2018 – Hollywood.

    Moxy Hotel by Marriott International

    FUTURO – A Hotelaria é repensada em Laboratório (literalmente)

    Com o fenômeno da economia compartilhada, as redes hoteleiras estão pressionadas a criar atributos cada vez mais autênticos para conseguir se diferenciar na mente do consumidor. Exemplo disso é a Starwood, que investiu USD 12 milhões em um laboratório de ideias, num espaço imenso em Manhattan.

    Designers estão quebrando a cabeça. A experiência precisa ser distinta, mas consistente. Os chuveiros com água da chuva, circulação repensada nos apartamentos, canecas de cerâmica para o café, mini set-ups para chá e café (típicos de uma casa, não hotel) são alguns exemplos. 

    O comportamento do hóspede foi colocada no microscópio, levada para laboratório, e está sendo analisada à exaustão. Daí surgirão respostas para perguntas como: “Porque manter uma mesa de madeira se as pessoas trabalham na cama com seus laptops?

    • Frase que define o novo momento: “Nenhum detalhe é pequeno. Nada está lá por acaso. Tudo serve perfeitamente a um propósito.” Allen Smith (Presidente e CEO da Fours Seasons).
    • Ícone no Mundo: Research and Discovery (Four Seasons), literalmente, um laboratório de hotelaria, onde todo tipo de equipamento, arquitetura e decoração é testado.

  • Área do espaço ‘Research and Discovery” da Four Seasons

    Em resumo, a inovação alcançará outro patamar na hotelaria daqui para frente. Palavras como Design Thinking, Ciência Comportamental e Sustentabilidade Criativa,  serão cada vez mais comuns.

    Preparado para o futuro?

Meu artigo original no Hôtelier News AQUI.

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Palestrante e Diretora da GO Associados, especializada em Capacitação de Pessoas, Excelência em Serviços, Marketing, Gestão do Luxo, Turismo e Hospitalidade. Gabriela atuou por 20 anos em reconhecidas multinacionais.